A Casinha feliz
PALAVRA DE PROFESSOR

 

Sandro Ramiro


Ao
MEC – Ministério da Educação e Cultura
Exmo. Sr. Ministro da Educação

 

            Eu, Sandro Panaro Ramiro, brasileiro, Funcionário Público Municipal – Professor de 1º Grau na área de Ciências Físicas e Biológicas, matrículas nº 200068 e nº 200654, lotado na S.M.E. de Paraty com exercício na Escola Municipal de 1º Grau do Ribeirinho.

            Assumi a S.M.E. de Paraty em janeiro de 1990 até dezembro de 1992. Na ocasião, buscávamos soluções para os problemas mais sérios do município em termos de Educação, já que nossa proposta era realmente de preparar alunos com qualidade em ensino, tornando-o cidadão de fato e de direito em nossa comunidade. Primeiro implantei o 2º segmento do 1º Grau por uma necessidade, pois tínhamos apenas uma Unidade Escolar Estadual que atendia nossas crianças e que na maioria das vezes não comportava esse contingente. Foi super satisfatório, pois ampliamos a Rede e abrimos novos horizontes para nossa Comunidade.

            Num segundo momento, percebemos que o nosso processo de alfabetização estava precário, alunos sem criatividade, massacrados pelo tradicionalismo, pelos desenhos xerocados e mimeografados. Achávamos que poderíamos melhorar e foi com esse objetivo que pesquisamos vários métodos e linhas. O que mais se aproximou do que queríamos foi A Casinha Feliz. Solicitamos a apresentação do trabalho pela autora, Professora Eloisa Meireles, o que nos deixou com muita ansiedade, dado as perspectivas de uma melhor Educação. Foram vários os treinamentos. Criamos o Programa Especial de Alfabetização, que foi lindo. Construímos a Casinha de Fantoches do Teatrinho da Casinha Feliz, os professores confeccionaram os bonecos, prepararam todo o ambiente e reaprenderam a cantar, contar histórias, a criar situações a partir da parte lúdica, da apresentação dos fonemas e a alfabetização passou a ser como uma brincadeira. Nossos alunos ficaram tão felizes e emocionados por diversos momentos especiais onde víamos o resultado do trabalho. Essas crianças eram alfabetizadas com muito carinho e dedicação e a escola ganhou outro rumo. Agora, era bonito, alegre, e comprometida, onde a comunidade passou a participar das atividades da escola. Tais alunos eram alfabetizados como num passe de mágicas, produziam textos, livros histórias e construíram seus próprios desenhos, era realmente uma perspectiva de um futuro melhor que vivíamos. Após minha saída da Secretaria de Educação, a falta de continuidade do processo e a falta de compromisso dos profissionais subsequentes levou ao encerramento do Programa, o que foi uma perda expressiva, pois agora, os alunos desta classe de alfabetização chegaram ao final do ano letivo com três a cinco fonemas, contribuindo para a estagnação e retrocesso no Processo Educacional. Foi muito triste após tanto investimento do município e com resultados práticos observados e documentados. Como disse, a falta de compromisso destes profissionais levou ao caos que estamos até hoje. Quiseram implantar um construtivismo sem base, sem preparo, sem valorizar o que estava acontecendo. Forçaram a saída de nossos profissionais das classes de alfabetização e alguns até da Unidade Escolar que lecionava, foi uma perda enorme.

            Após este momento e do afastamento destes profissionais, a Educação ficou sem rumo, não tínhamos crianças alfabetizadas até a 1ª série do primeiro segmento. Três anos se passaram e no ano passado, 1996, minha esposa que era professora deste Programa Especial de Alfabetização, agora lecionando com as 5ª séries, pode perceber o fruto daquele trabalho, pois duas de suas turmas passaram por este Processo na alfabetização e uma turma não. Verificou que o desempenho escolar era diferente, as crianças tinham conteúdo, criatividade, produziam textos maravilhosos, com boa caligrafia, pontuação, organização do pensamento, clareza, objetividade, bem redigidos, enquanto que a outra turma não conseguia sequer organizar o pensamento, não produziam o texto com clareza e sem avaliação crítica de qualquer natureza.

            Por isso, sinto-me muito a vontade em manifestar o meu descontentamento e a minha preocupação com a Educação em nosso país, percebo que a cada momento, grupos de pessoas tentam reformular o ensino sem de fato analisar a contribuição que determinados métodos representaram a representam até os dias de hoje. Percebo que o critério adotado só contribui para a quebra do valor da Escola, do valor dos profissionais comprometidos, alegando que a evasão é devido a não adequação da clientela escolar a nossa realidade e não percebem que o desempenho escolar se deve ao momento da alfabetização.

            Cabe lembrar, que após a constatação do fracasso que culminou nestes últimos anos, uma nova equipe de profissionais interados com o método Casinha Feliz se prontificou a retomar o trabalho.

            Gostaria que V. Ex. repensasse a decisão de retirada da cartilha A Casinha Feliz do Programa da FAE e refletisse sobre o assunto, tendo em vista que nós, profissionais comprometidos, queremos formar cidadãos, e que estes cidadãos possam exercer o papel que a sociedade lhes atribui.

Atenciosamente.

Sandro Panaro Ramiro
Prof. Municipal – Paraty - RJ