A Casinha feliz
PALAVRA DE PROFESSOR

Rio de Janeiro, 2 de Junho de 1997

Exmo. Sr. Ministro da Educação
Prof. Paulo Renato de Souza

 

Prezado Sr. Ministro,

            Na qualidade de professora, profissão que exerço há mais de trinta anos,  gostaria de dar um depoimento acerca do trabalho de Iracema e Eloisa Meireles, educadoras que desenvolveram um método de alfabetização inovador, amplamente atestado nas escolas de primeiro grau, em várias regiões do Brasil, a partir dos anos 50. Trata-se de um trabalho da maior seriedade que, depois de aperfeiçoado através de vários anos de pesquisa e de experiência com alunos provenientes de diversos meios sociais, foi divulgado através da cartilha A Casinha Feliz.

            Meu primeiro contato com o método foi quando, recém-formada pelo Instituto de Educação, comecei a lecionar numa escola pública freqüentada por crianças carentes de um subúrbio do Rio. Os alunos, em sua maioria, apresentavam dificuldades de aprendizagem, sendo comum naquela, como em outras escolas de nível semelhante, um alto grau de repetência. Em geral, pelos métodos então em uso, a alfabetização plena levava de dois a três anos.

            Depois de algumas entrevistas com a professora Iracema Meireles, através das quais pude familiarizar-me com os principais aspectos ligados à execução de seu método – envolvendo desde a preparação minuciosa das aulas de apresentação dos fonemas até a confecção do material didático correspondente a cada unidade – decidi aplicar a técnica da Casinha Feliz para alfabetizar os alunos da turma numerosa e altamente heterogênea que eu recebi. Inicialmente, tive que vencer as resistências das coordenadoras, habituadas aos métodos mais convencionais, a sentenciação e a palavração, na época adotados em quase todas as escolas da rede pública. Entretanto, a diretora, contagiada por meu entusiasmo, concedeu-me a liberdade de opção.

            A título de experiência, tive carta branca para iniciar meu trabalho. Era uma época em que as escolas estaduais orgulhavam-se de seu padrão de qualidade, contando com uma equipe de profissionais competentes, tanto entre os professores, como entre os quadros de direção. Ademais, havia uma identificação com o magistério, entendido como algo mais do que um simples meio de ganhar a vida. Enfim, havia uma preocupação em não esmagar a criatividade e o espírito inovador daqueles que se dispunham a ir além do estoque de conhecimentos e técnicas consagrados pelo uso, em busca de meios alternativos, quiçá mais eficientes.

            No final do ano letivo, pude verificar, com alegria, que o resultado fora superior aos que minhas prudentes expectativas permitiam antever. Com um índice de mais de 90% de aprovação, consegui alfabetizar uma turma difícil e resistente, dada a falta de motivação sobretudo por parte dos alunos que vinham passando pela traumatizante experiência da repetência em anos anteriores. O método havia passado pelo teste. Durante os meus cinco anos de experiência como professora de curso primário, continuei usando com sucesso o método da Casinha Feliz, certamente tão ou mais eficaz do que os demais.
Muita coisa se passou desde essa minha remota experiência. Hoje sou professora titular de Ciência Política da UFRJ, tendo permanecido a maior parte da minha vida profissional lecionando na pós-graduação. Apesar de ter me distanciado do ensino básico, ainda guardo nítida a lembrança daquela passagem rápida, porém marcante, pela escola pública nas classes de alfabetização.

            Qual não foi minha surpresa ao tomar conhecimento da inclusão da cartilha A Casinha Feliz na lista dos livros didáticos desautorizados pelo MEC! Efetivamente, creio que se trata de um equívoco. Tenho a certeza de que um exame mais cuidadoso mostrará a qualidade de um método, não só eficiente, em termos de seus custos, como eficaz, em termos dos resultados alcançados.

            É por essa razão, senhor Ministro, que não podia deixar de relatar-lhe essa experiência, na expectativa de que meu depoimento possa contribuir para a revisão de um parecer que inegavelmente acertou na maioria dos casos analisados, mas errou na avaliação do método em questão.

            Na qualidade de educador, sei que V. Ex. entenderá minhas razões, que não se restringem a prestar solidariedade a uma amiga de longa data, mas visam a fazer justiça a um trabalho sério e competente.

            Respeitosas saudações.

            Eli Diniz
Professora Titular do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro
Pesquisadora Associada do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro