A Casinha feliz
PALAVRA DE PROFESSOR
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Anísio Teixeira

Eloisa Meireles

Só existirá democracia no Brasil, no dia em que se montar no país a máquina que prepara as democracias. Essa máquina é a escola pública. (Manifesto dos Pioneiros, 1932).

Não venho aqui sem certo constrangimento falar sobre educação, porque sobre isto, quase tudo já se discutiu, mas nunca se fez tão pouco num setor. Por isso, os educadores foram acometidos de um pudor pela palavra e um desespero mudo pela ação. (1947)


Os brasileiros, depois de trinta, (1930) são todos filhos da improvisação educacional, que não só liquidou a escola primária, como invadiu os arraiais do ensino secundário e superior e estendeu pelo país uma rede de ginásios e universidades cuja falta de padrões e de seriedade atingiria as raias do ridículo, se não vivêssemos em época tão crítica e tão trágica, que os nossos olhos, cheios de apreensão e de susto, já não têm vigor para o riso e a sátira.
É contra essa tendência à simplificação destrutiva que se levanta este centro popular de educação.(Centro Educacional Carneiro Ribeiro). Desejamos dar, de novo, à escola primária, o seu dia letivo completo. Desejamos dar-lhe os seus cinco anos de curso. E desejamos dar-lhe seu programa completo de leitura, aritmética e escrita, e mais ciências físicas e sociais, e mais artes industriais, desenho, música, dança e educação física. Além disso, desejamos que a escola eduque, forme hábitos, forme atitudes, cultive aspirações, prepare, realmente, a criança para a sua civilização - esta civilização tão difícil por ser uma civilização técnica e industrial e ainda mais difícil e complexa por estar em mutação permanente. E, além disso, desejamos que a escola dê saúde e alimento à criança, visto não ser possível educá-la no grau de desnutrição e abandono em que vive. Tudo isso soa como algo de estapafúrdio e de visionário. Na realidade, estapafúrdios e visionários são os que julgam que se pode hoje formar uma nação pelo modo por que estamos destruindo a nossa.
(1950)

Jamais a administração escolar pode ser equiparada à administração de empresa. Em educação o alvo supremo é o educando, a que tudo mais está subordinado; na empresa, o alvo supremo é o produto material, a que tudo mais está subordinado... (1968)

A escola tem, pois, de se fazer, verdadeiramente, uma comunidade social integrada. A criança aí vai encontrar as atividades de estudo, pelas quais se prepara nas artes propriamente escolares, as atividades de trabalho e de ação organizatória e prática, visando a resultados exteriores e utilitários, estimuladores da iniciativa e da responsabilidade, e ainda atividades de expressão artística e de fruição de pleno e rico exercício de vida. Deste modo, praticará na comunidade escolar tudo que na comunidade adulta de amanhã terá de ser: o estudioso, o operário, o artista, o esportista, o cidadão enfim... Tal escola não é um suplemento à vida que já leva a criança, mas a experiência da vida que vai levar a criança em uma sociedade em acelerado processo de mudança. (1977)

Divulgar a palavra do professor Anísio Teixeira é tarefa que não carece justificativa. Haverá sempre um bom motivo para citar este mestre da palavra que usou a sua na defesa dos valores democráticos para a educação dos brasileiros. Ricos e pobres, religiosos ou ateus, brancos, índios ou negros, Anísio Teixeira lutou para que houvesse escola pública da melhor qualidade para todos. Onde lutou? Qual era seu campo de batalha? Ao contrário da maioria de nossa elite, Anísio Teixeira honrou os cargos que ocupou - e não foram poucos - fazendo deles uma tribuna de onde defendeu com brilho e patriotismo, a escola pública, leiga, universal, gratuita e ótima para todas as crianças brasileiras. Anísio sonhou com uma escola séria e eficiente que não aviltasse a sua dupla função de formar/informar. Uma escola que realmente repartisse com o povo o saber acumulado da civilização. Uma escola onde as crianças pobres tivessem acesso aos bens culturais da humanidade, os quais estão sempre disponíveis às crianças das classes privilegiadas que podem viajar, ir a teatros, cinemas, museus, bibliotecas, etc.

Nesta homenagem, unem-se o público e o particular. Anísio Teixeira dispensa apresentações e justificativas para ser homenageado. Isto é público. O particular é o nosso agradecimento.
No início de 1963, ainda à frente do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos - INEP, Anísio teve notícia de um novo método de alfabetização que além de muito eficaz, encantava as crianças que aprendiam a ler, através de suas atividades lúdicas e criadoras. Quis conhecê-lo de perto e abriu as portas da Escola Parque para a nova metodologia (Método Iracema Meireles).
Sob a direção de Carmen Spínola Teixeira, funcionava na Bahia a talvez mais bela realização pedagógica de que se tem notícia no Brasil: o Centro Educacional Carneiro Ribeiro, mais conhecido como Escola Parque. Constava de três escolas-classe e da escola-parque e atendia à população de três bairros populares de Salvador. As crianças recebiam ali uma educação integral e ficavam ocupadas o dia inteiro. As que estudavam pela manhã nas escolas-classe, freqüentavam a escola-parque à tarde e vice-versa.Na escola-parque aprendiam ofícios e faziam dança, desenho, pintura, escultura, teatro, cinema, esporte, música, etc.
Nas escolas-classe, desenvolveu-se a experiência-piloto com o novo método de alfabetização de Iracema Meireles. E foi precisamente por causa dos excelentes resultados desta experiência, que saiu a primeira edição da cartilha A Casinha Feliz, publicada pelo INEP, a pedido de seu diretor Anísio Teixeira.

Agradecemos a Anísio Teixeira, pela oportunidade ímpar de participar do seu sonho de escola e pela alegria de ver A Casinha Feliz editada.

Nossa homenagem àquele que foi um dos maiores educadores do Brasil.