A Casinha feliz
PALAVRA DE PROFESSOR

rocha.jpg - 10814 Bytes Rocha Lima

Eloisa Meireles*

Depois de longa (longuíssima) experiência portas dentro das salas de aula, sinto-me com certa autoridade para recomendar aos moços, especialmente os estudantes de letras e os novéis colegas licenciados, uma atitude de sacramental humildade diante da língua portuguesa, que se propõem a ensinar. Pois a verdade é que, havendo eu dedicado a vida inteira, dia após dia, hora e mais hora, sem pausa nem fadiga, a estudá-la apaixonadamente, convenço-me, a cada momento que passa, de quanto ainda me falta para possuir o tesouro das peculiaridades e sutilezas de seus opulentos meios de expressão.
Rocha Lima

Com seu estilo apaixonado e sempre elegante, o Professor Rocha Lima dirige-se aos professores de Português e, indiretamente, aos alfabetizadores - que são os primeiros professores da língua portuguesa - pois a alfabetização é passo decisivo no caminho de quem quer desvendar e possuir o tesouro do idioma.
Rocha Lima dedicou-se ao magistério durante toda a vida. Foi livre docente do Instituto de Letras da Universidade Federal Fluminense, catedrático do Colégio Pedro II, professor titular da Faculdade de Humanidades Pedro II, do Instituto Rio Branco e do Instituto de Educação. Autor de numerosos trabalhos filológicos, literários e didáticos, destacando-se a Gramática Normativa da Língua Portuguesa.
Carlos Henrique da Rocha Lima nasceu a 22 de outubro de 1915, no Rio de Janeiro e morreu a 22 de junho de 1991, no momento em que fazia conferência sobre um poema de Manuel Bandeira na Casa de Ruy Barbosa, no Rio de Janeiro.
A poesia era uma de suas grandes paixões, como ele próprio revela:
...território da minha amada predileção: o mundo irrevelável da poesia.
Todo poema,com os seus cantos escuros, é um enigma da linguagem: e, como tal,passível de interpretações variadas.


Palavras de Rocha Lima sobre o Método Iracema Meireles

Já tem cabelos brancos esta célebre frase de Emerson: "O que de melhor podem fazer as escolas, das classes primárias à universidade, é ensinar a ler".
Desde a aquisição inicial da habilidade de ler, ou seja, o milagre da alfabetização, até à arte superior da leitura expressiva para o efeito de interpretação artística, o problema ensinar/aprender esta difícil técnica continua a desafiar (e apaixonar) lingüistas, pedagogos e psicólogos.
O milagre da alfabetização! Este, realmente, o problema dos problemas - o zênite e o nadir, o alfa e o ômega. Eis por que, em pleno último quartel do século XX, ainda permanece aberto o velho debate em torno dos métodos de ensino da leitura.
Das modernas conquistas da Lingüística, a ciência que maior desenvolvimento tem apresentado em nosso tempo, a lição mais importante (e até certo ponto paradoxal!) que podemos extrair é a de que, à medida que se substituem umas às outras, as especulações teóricas sobre o funcionamento da linguagem, o deslumbramento (transitório) do "novo" vai cedendo lugar à ressurreição de muitas teses tidas por "superadas", as quais, por alicerçarem em longa experiência, aí estão, vivas, a subministrar elementos para contrabalançar o radicalismo de várias posições tidas por definitivas. Haja vista a doutrina de Chomsky, cujas raízes entroncam em essência, nas idéias de Port-Royal...
Estas reflexões foram suscitadas pelo exame, a que procedi, do mais recente dos métodos propostos para a iniciação à aprendizagem da leitura - Método Iracema Meireles - que, a meio caminho dos processos clássicos da soletração, da silabação e da globalização, não se acorrenta ortodoxamente a nenhum deles, porém não deixa de aproveitar, em suas grandes linhas, alguma coisa da filosofia que a cada um deles lastreia. Mas dá um passo adiante: além de assentar em recursos lúdicos sobremodo criativos, associando a imagem acústica à imagem visual por intermédio do conceito de Figura-Fonema, observa, com rigorosa exatidão, as oposições características do sistema fonológico do Idioma, o que por si só, a meu ver, seria suficiente para assegurar-lhe a eficácia.

Livre-docente do Instituto de Letras da Universidade Federal Fluminense; Titular da Faculdade de Humanidades Pedro II; Catedrático do Colégio Pedro II.




* Eloisa Meireles é professora